Adaptar metodologias na intervenção com os jovens em situação NEET

Na Covilhã, no âmbito do Fórum Jovem ALTAMENTE (projecto Quero Ser Mais E&G), realizou-se nas instalações da Coolabora no dia 29 de Julho a Oficina “Energizar as acções para jovens” que contou com a presença de animadore/as, técnico/as e responsáveis de instituições locais que conjuntamente reflectiram sobre três dimensões centrais do trabalho actual com os jovens:

  • quais são as causas da situação social cada vez mais grave dos jovens em Portugal e na Europa?
  • que práticas e experiências podem ser valorizadas para inspirar iniciativas futuras na acção com os jovens=
  • que políticas publicas devem ser implementadas para melhorar / inverter a actual situação?

A Oficina foi dinamizada pela Coolabora e pela Caixa de Mitos desenrolou-se em modalidade world café e teve momentos de debate e trabalho conjunto que foram particularmente gratificantes.

No encerramento da Oficina, a Caixa de Mitos adiantou alguns tópicos para aprofundamento colectivo posterior, nos seguintes termos:

 

 

JOVENS NEET, NÃO!

Importa combater a tendência para a formalização de um estatuto social colado aos jovens  denominando-os por jovens NEET, criando uma dinâmica de marginalização e de guetização através da linguagem, como aliás aconteceu com os desempregados, confundindo o “estar desempregado” com o “ser desempregado”, ou seja criando para os próprios e para a sociedade no seu conjunto uma leitura da situação de desemprego como um “modo de vida” e não como uma situação concreta “face ao emprego”.

A acumulação de várias carências ou de várias situações sociais negativas, em simultâneo por parte de jovens com expressão no emprego (ou na ausência dele) na escola (ou no seu abandono precoce) na formação (ou no desinteresse por ela) surge como representa apenas e só uma ponta do iceberg daquilo que é verdadeiramente dramático que é a “vida em precariedade” que marca os tempos actuais e a dinâmica social mais intensa da sociedade. Estar em situação de emprego, mas com contrato a muito curto prazo e com remunerações de salário mínimo; estar na escola, mas saber que o acesso às oportunidades a partir das qualificações será só para alguns e estar no centro de formação, mas ter claro que no final da preparação profissional e dos estágios raros são os que ficam com emprego, neste panorama a questão central não é a da motivação ou do apelo à combatividade dos jovens, mas antes a questão das soluções que invertam ou minimizem as actuais relações de precariedade estrutural.

É neste campo que se justifica uma crítica radical ao Mito dos 3Es (empregabilidade, empreendedorismo e empowerment).

QUE ABORDAGENS ESPECÍFICAS PODEM SER DESENVOLVIDAS PARA AGIR COM OS JOVENS EM SITUAÇÃO NEET?

Nos 4 eixos centrais, identificação/localização; orientação; formação e acompnahemento podemos adiantar algumas referências:

identificação/localização, como entrar no universo dos jovens em situação NEET, como estabelecer contactos duráveis e facilitadores de intervenções consistentes?

Nesta matéria importaria que o olhar dos que se posicionam nesta tarefa passasse a ser o de fomentar oportunidades e de captar para novas propostas   em vez de sistematicamente apresentar soluções pre~formatadas e sem qualquer  envolvimento dos seus potenciais destinatários.

Criar oportunidades e estabelecer pontes a partir da procura em vez da oferta parece ser a forma mais adequada para intervir de forma positiva neste domínio de actuação.

Orientação, como inserir na relação com os jovens em situação NEET, uma dimensão projectiva, uma abordagem às possibilidades de futuro?

Nesta vertente do trabalho com os jovens o princípio central radica na mobilização para a acção. De nada serve falar de futuro e de opções no campo profissional ou outros, se aos olhos de quem acolhe essas referências nada de verdadeiramente útil poderá acontecer.

Agir, fomentar a acção, constitui uma primeira dimensão de “possibilidade” de “hipótese realizável”. E nada melhor que o fazer em torno de acções pouco convencionais e de iniciativas que se traduzem em base para outras acções futuras.

Formação, como introduzir nas acções com jovens em situação NEET a dimensão formativa e o apoio a desenvolvimento de novas competências sem ser através dos modelos convencionais de formação?

Para quem se alheou dos processos formativos que foram surgindo ao longo de um percurso de exclusão, não será certamente boa ideia apresentar “a formação” como uma  saída para as dificuldades.

A rejeição dos modelos convencionais de formação é algo de absolutamente garantido. Nestes termos a abordagem tem que ser realizada pelo lado da valorização pessoal, ou seja propostas de actividades nas quais cada participante se sinta a concretizar algo que deseja e que o/a coloca em situação de expressão das suas reais competências e qualidades. Uma abordagem pedagógica que coloque o/a participante numa situação de domínio e auto-controle ao invés de uma situação de inferiorização face a conteúdos que desconhece ou não domina.

Acompanhamento, como apoiar jovens em situação NEET num percurso cujo itinerário é dominado pelas suas opções e as acções a desenvolver baseadas nas suas prioridades

Acompanhar e facilitar um processo de progressão que se baseie naquilo que é verdadeiramente importante para quem é acompanhado obriga a abandonar os processos de apoio prescritivos, com soluções pré-formatadas e sobretudo implica colocar-se do lado da “procura” em detrimento da “oferta”.

A negociação que se instala numa dinâmica de acompanhamento, nestas situações, exige uma postura do profissional que acompanha de humildade e de verdadeira co-construção, sem juízos de valor e sem preconceitos face à rejeição ou à desvalorização das soluções tidas por possíveis ou desejáveis.

Os quatro domínios de intervenção acima citados são geralmente antecedidos por iniciativas ligadas à prevenção. È verdade que neste quinto domínio muito há a fazer e nesse quadro de actuação há sobretudo que ouvir e auscultar de forma permanente os jovens que necessitam de apoio ou que poderão vir a necessitar dele.

Também na prevenção as melhores soluções são aquelas que se baseiam nas iniciativas desenhadas COM e PELOS próprios jovens.

Carlos Ribeiro 3 de Agosto 2016

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