Mini – manifesto, Melhores Oportunidades! Meia dúzia de alertas, porque também na educação de adultos,mais vale prevenir que remediar!
O anúncio de um novo programa para a Educação de Adultos pelo Governo português, que tudo o indica recuperará o essencial do Programa Novas Oportunidades, deve representar um momento de regozijo e ao mesmo tempo servir para alertar para alguns princípios que caíram no esquecimento no meio da febre certificadora que marcou a derradeira fase das NO e algumas áreas de progressão que um novo Programa deveria incorporar.
1º Colocar o diploma no devido lugar!
Um percurso de aprendizagem pode e deve ter tradução numa certificação. O diploma deve representar valor acrescentado, para quem o obtém. Mas a educação de adultos não deve ser orientada principalmente por esse objectivo operacional. Deve integrá-lo numa estratégia de desenvolvimento do adulto, como cidadão(ã) e como pessoa que dá valor às aprendizagens para agir e viver em sociedade, procurando a sua realização pessoal e humana.
2º O que eu quero aprender!
O modelo escolar tem dominado a Educação de Adultos. Nas actividades formativas com adultos reproduzem-se sistematicamente as bases e as referências pedagógicas da formação inicial. Não é nem a experiência nem as necessidades da vida adulta que estruturam o processo de aprendizagem, mas antes um programa baseado em conteúdos pré-estabelecidos. Mas existem, apesar de tudo, inúmeras experiências de aprendizagem que se baseiam em modelos andragógicos e em dinâmicas flexíveis e adaptadas que favorecem aprendizagens participadas e colaborativas. Mas não sendo principalmente uma questão metodológica, não seria mau de todo que cada adulto pudesse num futuro próximo indicar e decidir sobre aquilo que quer aprender.
3º Nada sobre NÓS, sem nós!
Os adultos que se encontram em processos de aprendizagem devem estar auto-organizados. Trata-se de um princípio essencial da relação cidadã num sistema que deve favorecer o seu empoderamento. A auto-organização deve facilitar uma participação activa nos diversos domínios da organização e desenvolvimento das acções ou actividades previstas nos programas de educação de adultos. Importa que estejam previstos no sistema de governação mecanismos de co-decisão que promovam simultaneamente a co – responsabilização nas acções a desenvolver.
4º Histórias da carochinha, ou dar sentido às experiências vividas.
Os processos de reconhecimento e validação de competências foram inquinados por um vírus, na fase da febre certificadora, que os desvalorizou dramaticamente. Tratou-se do vírus da História de Vida em Álbum de Família. Confundiu-se a metodologia específica do RVCC português que combinava de forma criativa os modelos de trabalho com o adulto baseados no Balanço de Competências e nas Histórias de Vida, com a organização de álbuns de família com enfoque exclusivo na narrativa e na sua ilustração, sendo omitida toda a pesquisa partilhada e participada sobre o sentido das experiências vividas e sobretudo sobre as componentes estruturantes das competências abordadas em contexto dinâmico e nos seus processos combinatórios no enfrentar das situações peculiares.
5º Voltar ao banco da escola, ou viver a vida como os seus pares!
Foram realizadas muitas experiências de combinação dos processos formativos com a organização de iniciativas envolvendo as comunidades locais. As Universidades e Academia seniores têm enriquecido este domínio da educação de adultos como plataforma de socialização e de iniciativa cidadã. “O que podemos fazer por nós próprios e também pelos outros” eis uma interrogação inicial cuja resposta deve ser encontrada nas redes de aprendizagem quando se elege a solidariedade e a coesão local como valores fundamentais em detrimento do enfoque na competitividade e na afirmação de objectivos exclusivamente individuais.
6º D(e)statizar o sistema, para melhor o apoiar!
As escolas e os centros de formação que funcionam na base de dinheiros públicos, introduzem nos sistemas com vocação certificadora mecanismos formais que se aproximam mais do “controle” que da “avaliação de desenvolvimento”. Não é necessariamente uma abordagem generalizada, mas ela é dominante. Por isso, e por diversas outras razões, o perfil dominante das entidades promotoras de acções de educação de adultos deveria estar associado à Sociedade Civil, às estruturas de maior proximidade geográfica e cultural dos adultos e às redes locais de associações e empresas. Só uma visão hipercertificadora pode colocar a quase totalidade dos dispositivos da educação de adultos em estruturas do Estado ou dele dependentes.
Carlos Ribeiro
24 de maio de 2016